O mercado brasileiro da bicicleta atravessa uma nova fase. As elétricas avançam, as estradeiras chinesas desembarcam e os efeitos do crescimento acelerado durante a pandemia ainda reverberam com força em todos os elos do setor

Passados alguns dias do final do Shimano Fest e depois de escutar os muitos comentários de gente do setor, é difícil tirar uma conclusão definitiva. Que o mercado está em transformação, não há nenhuma dúvida. A eletrificação, para alguns, é a tábua da salvação; para outros, a chegada das estradeiras chinesas, sem grife ou fama, mas de alta qualidade, mostra que o ciclismo de estrada pode ser algo mais que um nicho — e segue uma tendência também observada em outros mercados.
Entre novidades, erros e acertos, transparece a necessidade de o setor encontrar estratégias para recuperar o ritmo de crescimento ou, ao menos, encontrar seu ponto de equilíbrio.
Do lado empresarial, várias marcas passaram por ajustes internos — sinal dos tempos e da necessidade de chegar ou entrar de forma mais competitiva no varejo. Do outro lado, os lojistas, com o fluxo de caixa mais apertado e elevada inadimplência junto a seus fornecedores, mais uma vez expõem a fragilidade do setor e a necessidade de encontrar soluções muito além da simples entrada no mundo digital para vender seus produtos ou diversificar o mix em busca de maior rentabilidade — saindo do tradicional. É preciso melhorar a prestação de serviços e criar novas formas de fidelizar os clientes. A bike shop, a bicicletaria, cada vez mais terá de montar uma equação que combine bicicleta + oficina + acessórios + comunidade + experiência.
Um mercado cada vez mais fragmentado
O mercado brasileiro não parece estar desaparecendo. Está se fragmentando — cada vez mais.
De um lado, modelos de entrada extremamente pressionados por preço e pela forte competitividade com fabricantes locais de quadros e kits, além da oferta crescente de quadros importados.
De outro, um segmento premium cada vez mais sofisticado e com preços que, para muitos consumidores, parecem fora da realidade.
No meio, um consumidor que está procurando valor — não necessariamente a marca mais famosa, mas sem abrir mão da qualidade e de uma montagem que ofereça determinados padrões de componentes. Isso fica bastante claro nas conversas com muitos dos visitantes do Festival.
E isso ajuda a explicar tanto a chegada das chinesas quanto a eletrificação e a necessidade de as marcas tradicionais se reposicionarem.
Já há quem tenha adotado uma posição drástica: deixar os modelos de mountain bike de alumínio de lado, apostar na eletrificação com várias opções e manter apenas uma ou outra bicicleta de carbono no portfólio.
Porém, mais uma vez, o Festival da Bike — o Shimano Fest — foi um ponto de encontro e não deixa de ser um importante espaço para apresentar novidades, fazer negócios, avaliar tendências e, principalmente, estar próximo do consumidor e funcionar como um termômetro do atual momento.
Elétricas e mais elétricas
Circular pelos corredores revelou que as e-bikes — e outros autopropelidos — fazem cada vez mais parte do dia a dia do mercado. Há opções para todos os gostos e bolsos. Porém, nem tudo são e-bikes — aquelas bicicletas de pedalada assistida que funcionam somente quando pedalamos e cujo motor é cortado aos 32 km/h. Saudades de quando adotávamos o padrão europeu dos 25 km/h. Basta pensar em quanto mais uma e-bike precisa de força nos freios e na distância adicional que ela percorre até parar com esses 7 km/h a mais.

Havia muita coisa com cara de scooter e “motinha” elétrica. Escutei até comentário sobre modelo elétrico equipado com freio a disco mecânico, acionado por cabos, e com apenas dois pistões — um conjunto que levanta questionamentos sobre a capacidade de frenagem em equipamentos mais pesados e velozes. Pode até ser que houvesse alguma dessas traquitanas em exposição, mas é importante apontar que são justamente esses modelos que vêm ganhando espaço e abocanhando parte do mercado. Um perigo em dose dupla: tanto pela questão da segurança quanto pelo futuro relacionado às peças de reposição e à reciclagem dos componentes quando a vida útil desse equipamento chegar ao fim. E, acreditem, esse momento pode chegar muito antes do que imaginamos.
No mercado das esportivas eletrificadas, não há como negar que as atenções foram dirigidas à nova e exclusiva Oggi Potenza Pro, apresentada de antemão na Eurobike, equipada com o revolucionário motor Avinox M2S. A máquina oferece muita potência para o off-road — e quem andou diz que a força é de um coice. Empurra muito, mas é um produto destinado a um público específico.
Na parte industrial, a percepção no mercado é de que Manaus está se tornando o endereço certo para muitas marcas que apontam para a eletrificação. E aqui não se trata apenas das empresas já estabelecidas por lá, com operações há anos e que até ampliaram suas plantas industriais, como foi o caso da Oggi. É gente que busca colocar sua marca nesse mundo e vai para o Norte do País em busca dos incentivos fiscais.
A bicicleta elétrica não é mais uma “tendência”. Ela já é uma categoria estrutural do mercado brasileiro. A questão que aparece é: qual é o seu fôlego e quando ela entra para disputar espaço diretamente com as motocicletas?
E há outra pergunta ainda mais importante: a bicicleta elétrica está trazendo novos consumidores para o mercado ou simplesmente substituindo parte do mercado convencional?
Em conversas com pessoas de longa data no setor, o atual boom das e-bikes e dos modelos autopropelidos também remete ao início dos anos 1990, quando a chegada do mountain bike abriu uma nova frente para o mercado brasileiro. Naquele momento, empresários sem experiência no setor foram atraídos pelo potencial da novidade e passaram a importar bicicletas pelo simples apelo de serem MTB. O resultado, em muitos casos, foi conhecido: produtos que acabaram encalhados nas lojas ou, pior, transformaram-se em problemas para lojistas e consumidores.
A história ajuda a colocar o atual movimento em perspectiva. O crescimento de uma nova categoria pode ampliar rapidamente o mercado, mas também exige conhecimento do produto, assistência técnica, peças de reposição, distribuição e, sobretudo, uma rede capaz de sustentar a experiência do consumidor depois da venda. O problema não é a chegada da novidade; é chegar ao mercado sem estar preparado para sustentá-la.
Roadies, estradeiras, gravel
Mesmo sem termos um ciclismo de estrada forte — com uma boa quantidade de equipes e competições — e com a certeza de que, ano após ano, teremos ao menos duas voltas ciclísticas, em Santa Catarina e São Paulo, a modalidade cresce junto ao público que vem participando cada vez mais de grupos e de provas amadoras.
Prova disso também é parte do sucesso do Giro d’Italia Ride Like a Pro, que teve sua edição paulista durante o Shimano Fest e atraiu mais de 2 mil participantes.

Porém, aqui também surge um dilema: para muitos, o ciclismo de estrada está ficando caro — ou, como diriam alguns mais antigos, ficou “gourmetizado”. Para quem não é do ramo ou é do tempo das bicicletas de 10 marchas, é difícil entender que uma estradeira possa custar mais de R$ 100 mil e que não se encontre um modelo de entrada mais próximo da realidade do consumidor médio.
O Festival trouxe alguns sinais. Duas marcas chegam para disputar o mercado com as grandes marcas internacionais — e também com as nacionais: X-Lab e Quick Pro.

O contra-ataque chega em breve com a Caloi Strada, com quadro de carbono, e, daqui a alguns meses, com o resgate do quadro de alumínio — uma opção mais acessível que se apoia na campanha publicitária lançada neste ano, Pedal para Todos. É um sinal de resgate histórico da marca, apontando não apenas para as bikes de estrada, mas também para outros modelos e para a ampliação de sua base de consumidores.

A Audax revigorou suas estradeiras Ventus 3000 e Stelvio, enquanto a Swift chega com fortes atualizações na família Terravox, em três versões dedicadas ao gravel. Além de nova geometria, os modelos trazem maior espaço para pneus, com opções de até 55 mm. e as graveleiras apareceram em praticamente todos os stands das principais marcas apontando um consumidor que busca uma solução para todo terreno, do asfalto às estradinha de terra – o all-road.
Mountain Bike: do 26 ao 32”
Dos modelos de maior produção aos destinados aos mais variados tipos de uso, o Festival segue o que se vê há tempos no mercado nacional. As MTB são as queridinhas de muitas lojas e fabricantes e acabam, consequentemente, entre as mais produzidas graças à sua versatilidade de uso — apesar das controvérsias levantadas pelos mais ortodoxos, que questionam se realmente são as mais confortáveis para deslocamentos e uso no dia a dia.
O mais importante que se viu: todas as marcas que operam no mercado local estão aguardando o movimento das grandes marcas globais. É certo que, pouco a pouco, passaremos a sofrer o impacto da chegada das rodas de aro 32”.
Será uma substituição de frota como já foi vista na passagem da 26” para a 29”? Talvez, mas sem a mesma certeza de agradar e ainda cheia de dúvidas.
Isso não impediu que várias marcas apresentassem protótipos — alguns ainda precisando de ajustes, principalmente quando se trata de tamanhos pequenos. Uma 32” pequena chegou a remeter à imagem de um garotinho de 10 anos tentando pedalar uma Barra Forte…

Se a passagem do aro 26” para o 29” representou uma verdadeira substituição de frota com todas as vantagens que isso trouxe, ainda é cedo para afirmar que o 32” repetirá a história. Desta vez, além do tamanho, entram em jogo geometria, ergonomia, disponibilidade de componentes e, principalmente, o tamanho do consumidor.
Quanto às novidades, muita atualização de geometria, adoção de diferentes combinações de componentes e ampliação de famílias com o mesmo quadro oferecido em várias versões de componentes. Uma estratégia que amplia o leque de opções sem a necessidade de desenvolver um novo modelo a cada configuração.
E agora?
No fim, o que o Shimano Fest deixou claro é que o mercado brasileiro não espera uma única solução.
Há quem aposte nas elétricas, quem enxergue oportunidades nas estradeiras, quem amplie o portfólio no MTB e quem tente sobreviver combinando venda, oficina e relacionamento.
A transformação já está em curso. O que ainda não está claro é quem encontrará a fórmula para crescer dentro desse novo mercado — e quem ficará pelo caminho.
Afinal, o setor se anabolizou durante a pandemia. Agora, os efeitos colaterais começam a aparecer.
Mundo Bici Mundo Bici – Por George Panara