COPA DO MUNDO DE MTB 2027: RECUO NA EXPANSÃO INTERNACIONAL EM MEIO À CRISE DAS EQUIPES

Calendário de 2027 da Copa do Mundo de MTB  terá oito etapas por especialidade — cross-country (XCC e XCO) e downhill (DH) —, sem provas na América do Sul ou na Ásia; encerramentos de equipes tradicionais e saída do enduro da série ampliam as incertezas sobre os rumos do circuito

Etapa de Les Gets, na França, uma das mais procuradas pelos fãs do DH, está confirmada para junho – foto: WBD-UCI

A WHOOP UCI Mountain Bike World Series anunciou o calendário de 2027 com dez rodadas distribuídas por oito países, mas a programação sinaliza um recuo na estratégia de expansão internacional adotada nos últimos anos. Depois de abrir as temporadas de 2024 e 2025 no Brasil e levar a Copa do Mundo à Coreia do Sul em 2026, a organização volta a concentrar as disputas na Europa e na América do Norte.

A mudança ocorre em um momento de dificuldades para o mountain bike profissional, marcado pelo encerramento de equipes tradicionais, pela revisão das estratégias de investimento de fabricantes e pela saída do enduro da programação da série a partir de 2027.

A temporada começa em 21 de maio, em Nové Město na Moravě, na República Tcheca, com as provas de cross-country. Uma semana depois, o downhill abre sua temporada em Loudenvielle-Peyragudes, nos Pireneus franceses. O calendário termina na América do Norte: o cross-country terá sua última rodada em Soldier Hollow, nos Estados Unidos, em setembro, enquanto o downhill encerra o ano em Whistler, no Canadá, no início de outubro.

Expansão internacional perde espaço

A presença de novos destinos fora do eixo tradicional europeu e norte-americano foi uma das marcas recentes da WHOOP UCI Mountain Bike World Series. Em 2024, o Brasil recebeu as duas primeiras etapas de cross-country, em Mairiporã e Araxá. No ano seguinte, Araxá voltou a sediar as duas rodadas iniciais da modalidade. Em 2026, a organização ampliou a presença geográfica do circuito com a estreia da Coreia do Sul como sede da Copa do Mundo.

Para 2027, porém, não há etapas na América do Sul ou na Ásia. O calendário retoma o perfil concentrado em destinos europeus e norte-americanos, mantendo circuitos tradicionais e trazendo de volta locais valorizados pelos fãs, como Val di Sole, na Itália, e Whistler, no Canadá.

Brasil que recebeu etapas em 2024 e 2025 ou qualquer outro país da América do Sul está fora do calendário 2027 – foto: WBD-UCI

A mudança levanta dúvidas sobre a viabilidade do projeto de internacionalização. A proposta de alternar destinos entre a América do Sul e regiões da Oceania ou da Ásia não se reflete na programação anunciada para 2027. Nos bastidores, comentava-se sobre os altos custos de deslocamento e logística envolvidos na realização das etapas em mercados distantes, tanto para os organizadores quanto para as equipes.

O calendário, por si só, não esclarece se o recuo decorre desses custos, de decisões comerciais ou da dificuldade de manter o modelo em diferentes regiões do mundo. O fato é que, após três temporadas com provas fora do eixo tradicional, a Copa do Mundo volta a se concentrar em dois continentes.

Equipes tradicionais encerram seus programas

A retração geográfica ocorre paralelamente a uma sequência de encerramentos de equipes de elite. A Cannondale Factory Racing anunciou o fim de seu programa de fábrica ao término de 2026, depois de mais de três décadas no cross-country. A BMC também confirmou o encerramento de sua equipe de fábrica na modalidade.

A Lapierre PXR Racing interrompeu suas atividades durante a temporada, enquanto a Ghost Factory Racing já havia anunciado o fim de seu programa no início de 2026. Os casos têm cronologias e causas distintas, mas ilustram as dificuldades para manter estruturas profissionais de alto nível.

Não há uma explicação única para esse movimento. A situação financeira de algumas empresas, as mudanças nas estratégias de marketing e patrocínio, os custos de manutenção das equipes e a busca por outras formas de exposição das marcas compõem um cenário complexo. Enquanto a Cannondale prepara um programa mais amplo, com ciclistas, criadores de conteúdo e iniciativas voltadas à comunidade, a BMC pretende redirecionar investimentos para o ciclismo feminino de estrada e o gravel. No caso da Lapierre, o encerramento está ligado também às dificuldades financeiras do grupo Accell, controlador da marca.

Parte dos ciclistas e profissionais afetados ainda não tem destino definido para a próxima temporada. A redução do número de programas de fábrica pode dificultar a continuidade de carreiras na elite, sobretudo para quem depende de contratos com equipes para custear viagens, equipamentos e preparação ao longo de um calendário internacional.

O quadro não se resume, portanto, a uma crise financeira generalizada. Trata-se de uma combinação de dificuldades econômicas, mudanças nas prioridades das marcas e revisão dos modelos de investimento no esporte.

Enduro também deixa a programação

Outro fator importante para 2027 é a saída da Copa do Mundo de Enduro da estrutura da série. O cancelamento da temporada da modalidade foi anunciado em 2026 pela UCI e pela Warner Bros. Discovery, antiga responsável pela gestão comercial e esportiva do circuito.

O enduro tem características próprias, tanto no formato das provas quanto na relação com o público e na cobertura midiática. Apesar de sua relevância no mountain bike, a modalidade não alcançou o mesmo impacto de audiência e exposição internacional do cross-country e do downhill dentro da Copa do Mundo. A partir de 2027, o calendário da série ficará restrito às duas modalidades. A mudança não significa o fim do enduro competitivo, mas representa uma redução da diversidade de disciplinas reunidas sob a estrutura da WHOOP UCI Mountain Bike World Series.

Oito etapas por modalidade em 2027

Embora o anúncio oficial apresente dez rodadas, esse número não corresponde à quantidade de etapas disputadas por cada especialidade. Algumas sedes recebem cross-country e downhill no mesmo fim de semana, enquanto outras são exclusivas de uma das especialidades.

O calendário de 2027 prevê oito etapas de cross-country, na dobradinha XCO e XCC, e oito de downhill. Em 2026, foram nove etapas por modalidade. Em 2025, o calendário contou com dez etapas, enquanto em 2024 foram oito de cross-country (XCO e XCC) e sete de downhill.

Soldier Hollow fecha a temporada de XCC+XCO – foto: Michal Cerveny/WBD-UCI

A redução para oito etapas por modalidade em 2027, somada à ausência de destinos sul-americanos e asiáticos e à saída do enduro da série, representa uma mudança significativa em relação à expansão dos últimos anos.

A organização afirma que o calendário reunirá circuitos tradicionais, público apaixonado e disputas de alto nível. Resta saber se o formato mais concentrado conseguirá oferecer condições economicamente sustentáveis para equipes, ciclistas e organizadores, sem comprometer o alcance internacional que a Copa do Mundo buscou ampliar.

COPA DO MUNDO DE MTB 2027

1- 21 a 23 de maio – Nové Město na Moravě 🇨🇿 – XCC + XCO

2- 20 a 20 de maio – Loudenvielle-Peyragudes 🇫🇷 – DH

3- 11 a 13 de junho – Saalfelden Leogang – SalzburgerLand 🇦🇹 XCC+XCO – DH

4- 18 a 20 de junho – Les Gets, Haute-Savoie Mont Blanc 🇫🇷 – XCC+XCO – DH

5- 2 a 4 de julho – La Thuile, Vale de Aosta 🇮🇹- XCC+XCO – DH

6 – 9 a 11 de julho – Pal Arinsal 🇦🇩 – XCC+XCO – DH

7- 20 a 22 de agosto – Bike Kingdom, Lenzerheide 🇨🇭 – XCC+XCO – DH

8 – 10 a 12 de setembro – Val di Sole, Trentino 🇮🇹- XCC+XCO – DH

9- 25 e 26 de setembro – Soldier Hollow, Midway, Utah 🇺🇸 – XCC+XCO

10- 2 e 3 de outubro – Whistler Mountain Bike Park, Colúmbia Britânica 🇨🇦 – DH

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