Apontando há alguns anos apenas ao mercado das bicicletas de estrada e do gravel, e longe dos modelos de entrada básicos para essas modalidades, a Campagnolo acumulou em três anos prejuízos que superam os 24 milhões de euros, a crise levou a demissão de 120 dos seus 300 funcionários da fábrica de Vicenza

A turbulência na indústria global da bicicleta coloca mais uma empresa de joelhos; desta vez os problemas chegaram à italiana Campagnolo, que após três anos fechando seus balanços no vermelho se viu obrigada a elaborar um plano de racionalização que entre outras coisas envolve a demissão de 120 dos seus 300 funcionários da fábrica localizada em Vicenza.
Em comunicado distribuído aos meios de comunicação locais, a empresa reitera que “não há alternativa” a esse plano industrial a não ser “consequências drásticas para a Campagnolo e para a cidade de Vicenza”,
Os problemas que levaram a Campagnolo a essa situação são muitos, e se arrastam há anos.
Se voltarmos na história marca nunca conseguiu emplacar seus componentes no começo do mountain bike, isso a deixou totalmente fora desse mercado, e apesar de ter tecnologia, a direção, procurou nem se arriscar a desenvolver componentes especiais que poderiam mantê-la ainda ativa nessa modalidade – cometendo um tremendo erro estratégico – como já havia acontecido alguns anos antes com o BMX quando em 1982 chegou a produzir ótimos pedivelas, cubos e pedais.
Anos mais tarde deixou de produzir grupos de estrada mais acessíveis, voltados para as bicicletas de estrada de entrada para atender as montadoras – como foram o Stratos, depois o Avanti, Mirage e Veloce – e optando por se dedicar à produção de componentes de gama médio-alta e e alta- acreditando que conseguiria se manter trabalhando como os modelos topo de linha e com bicicletas para um publico de maior poder aquisitivo – que praticamente opta por escolher componente por componente em uma montagem mais personalizada, porém uma escolha que a distanciou ainda mais das montadoras – e para muitos sobre o falso argumento de produzir componentes caros sem comparar a tecnologia envolvida, os matérias utilizados – nos modelos topo de linha ela sempre esteve acima de suas concorrentes pois tecnicamente não é simples traçar paralelos entre os produtos.
Em recente entrevista ao site alemão BikeX, Davide Campagnolo, CEO da empresa e neto do Fundador Tullio Campagnolo mostrou honestidade ao reconhecer certos erros da empresa: “nossos clientes e parceiros tiveram experiências ruins conosco nos últimos anos. Como resultado, nossa participação no mercado global diminuiu drasticamente – a Campagnolo, como marca, simplesmente não tem presença suficiente. Quase não temos relevância, especialmente para as gerações cada vez mais jovens, em parte porque tínhamos produtos muito caros em nosso portfólio, como o câmbio eletrônico Super Record de 12 velocidades, que, por diversos motivos, não vendeu tão bem quanto esperávamos” .

Atualmente, a marca italiana tem em seu catálogo a linha Super Record em suas variáveis de 13 velocidades para estrada e gravel – wireless, Super Record de 12 velocidades mecânico e o Chorus e 12v e sua versão mais acessível com freio no aro (sim, a marca ainda mantém seus ótimos freios tradicionais). No gravel além do SR (2×13 e1x13) ela ainda tem o Ekar e o Ekar GT de 13V..
Nesse comunicado que trouxe à tona a crise, a empresa observou que “as demonstrações financeiras até 31 de maio de 2025 mostram que o prejuízo para os exercícios de 2023, 2024 e 2025 ultrapassará € 24 milhões. Diante desses números desafiadores, principalmente devido a uma conjuntura setorial extremamente difícil que afeta tanto a Campagnolo quanto seus concorrentes em todo o mundo, o documento afirma que “o acionista contratou um empréstimo de € 10 milhões entre novembro de 2024 e dezembro de 2025”.
Apesar dessa entrada de capital por meio de empréstimo, a informação oficial distribuída à imprensa italiana aponta: “A liquidez, hoje, não garante a continuidade dos negócios nas condições atuais. Portanto, além de um plano de desenvolvimento de produto contínuo, a retomada não é possível sem uma revisão significativa dos custos em todos os níveis.”
A direção da Campagnolo também informou que “elaborou um plano financeiro direcionado a instituições e potenciais parceiros para reverter a tendência e devolver à comunidade de Vicenza uma empresa não apenas tecnicamente excelente, mas também capaz de se sustentar e com uma redução de 40% nos custos trabalhistas, o que permitirá a continuidade dos empregos na unidade de Vicenza por um bom tempo, ainda que em menor escala”.
O duro golpe chega em um momento que Davide Campagnolo, que assumiu o cargo a pouco mais de um ano e meio, passou a adotar uma abordagem de que novidades e transformações aconteceriam – “Nosso objetivo a longo prazo é reconquistar a confiança da indústria e dos clientes por meio de produtos melhores – menos luxo, mais desempenho”, além de entender que precisavam voltar a ser opção para as fábricas: “Precisamos voltar a oferecer bicicletas completas com grupos Campagnolo no mercado. Porque mais de 90% dos clientes compram bicicletas totalmente montadas – é aí que precisamos estar. Mas, para isso, precisamos reconquistar a confiança da indústria” e para ussi planejando ter na linha três níveis de grupos eletrônicos – o topo da linha o Super Record, outro aproximadamente equivalente ao Shimano Ultegra, além de um modelo abaixo, mas sem levar a eletrônica aos modelos de entrada.
Resta aguardar para saber qual será o destino de uma das mais icônicas marcas de componentes, se a família ainda manterá o controle ou se a empresa será absorvida por um grupo de investimentos ou socorrida por alguma empresa do setor.
Mundo Bici Mundo Bici – Por George Panara