Reconhecido internacionalmente pela profundidade dos seus trabalhos aonde guerras, pobreza, desigualdades e injustiça eram trazidos à realidade de revistas e livros, o fotógrafo Sebastião Salgado também colocou suas lentes sobre o ciclismo, ou melhor sobre ‘as pessoas’ que vão para à beira da estrada acompanhar o Tour de France, isso foi em 1986

Um dos maiores fotógrafos brasileiros, mineiro de Aimorés e cidadão que levou seu olhar para todos os continentes do Mundo, Sebastião Salgado, morreu nesta sexta-feira (23/05) em Paris, onde estava radicado desde 1969.

Economista de formação, Salgado começou a fotografar no início da década de 1970 na França, e impactou o mundo com a densidade de seus trabalhos. Considerado um gigante da fotografia em preto e brando. Fotografou para as agências Sigma, Gamma e Magnum. Atualmente, as fotos de Salgado fazem parte das coleções de numerosos museus e instituições importantes ao redor do mundo.

Em 1986 aceitou o pedido do jornal francês Liberation para fotografar o Tour de Franc, quando ele havia acabado de iniciar sua série “Trabalhadores: Arqueologia da Era Industrial”.

Para a cobertura do Tour, o jornal diário francês pediu que ele fotografasse os ciclistas e também o público. Seguindo seu estilo, Salgado parou em muitas das vilas por onde passava o Tour, a série mostra a obsessão de Salgado pelos Homens e seu meio ambiente.

“Eu já amava a França. Mas depois deste Tour, amei-a ainda mais”, confessou à época. Foi assim que, de 4 a 27 de julho de 1986, o fotógrafo brasileiro acompanhou cada etapa desta que é a mais importante das três grandes voltas do ciclismo.

Nesta cobertura foi acompanhado pelos jornalistas Pierre Briançon, Gilles Millet e Jean Hatzfeld, Sebastião Salgado mais uma vez se destacou pela autenticidade de sua visão fotográfica. “Sua inocência o fez capturar coisas na câmera que simplesmente não víamos”, diz Patrick Le Roux, jornalista do Liberation.

As imagens de Salgado traçaram um retrato único da França e de seus habitantes. “Descobri um país dezesseis vezes menor que o meu, mas talvez dezesseis vezes mais diverso”, comentou o fotografo.

Em muitas etapas, ele ia ao local bem antes da corrida, apenas para “observar” as pessoas. Lá, aprendeu sobre os franceses, descobriu seus sotaques e fotografou espectadores da Bretanha ou dos Pireneus. Fazendo um contraponto às tradicionais coberturas esportivas, Salgado estava mais interessado nos homens à beira da estrada do que nos grandes campeões do Tour. Gilles Millet conta que passava o tempo gritando: “Parem, parem, tem uma fotografia para tirar aqui!”

Em 2016 esse trabalho fotográfico feito por Salgado foi resgatado dos arquivos pela Galeria Polka – e exibido ao público durante o mês de Julho, no mesmo período que foi disputado o Tour de France.
Fotógrafo que viajou pelo mundo sem cessar, contraiu uma forma particular de malária em 2010 na Indonésia, quando trabalhava em parte de seu projeto Gênesis. Quinze anos depois, as complicações dessa doença se transformaram em uma leucemia grave. Além de sua esposa Lélia, Sebastião deixa seus filhos Juliano e Rodrigo e seus netos Flávio e Nara.
Mundo Bici Mundo Bici – Por George Panara